quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Conheça as redações: 3º lugar


Querendo ser alguém



    De tudo o que me lembro hoje é que tinha que ajudar meu pai na roça, ao cantar do galo me levantava escovava os dentes em um riacho em frente a minha casa, depois ia me sentar junto ao meu pai, esperando ele tomar seu chimarrão escutando notícias em um radinho de pilha.

    Quando dava a hora de ir para roça, íamos nós, eu e meus dois irmãos, subíamos uma serra muito grande, conversávamos muito, e ao chegar lá em cima tínhamos que cuidar da terra ou colher fumo para fazer cigarro. Que trocávamos por alimentos, temperos e tecidos para fazer roupas.

    Frequentei a escola só até a 7º série, pois íamos descalços, às vezes com fome, e tínhamos que andar muito, porque não tinha transporte escolar. Minha adolescência não foi muito boa, aos 11 anos tive que trabalhar como babá, pois as colheitas não foram boas e tive que ajudar no sustento da família.

    Vivi com meus pais até aos 16 anos, porque tive uma discussão muito grande com meu pai, porque ele tinha me batido muito e eu disse um palavrão a ele, e ele disse para mim não voltar nunca mais. Contei para minha amiga, ela disse que ia para uma cidade chamada São Leopoldo, e fui junto com ela, o caminho era muito longo, fiquei na janela do ônibus vendo as coisas novas que a vida me oferecia.

    Ao chegar na cidade morei com minha amiga por uns dias, procurei emprego e achei, um casal de italianos me empregaram de empregada doméstica e babá, então consegui alugar uma casa. Fui a um baile chamado Bolão, foi lá que pensei que tinha achado o amor de minha vida, meu marido do meu primeiro casamento.

    Aos 17 anos engravidei e tive uma menina, foi meu primeiro filho. Trabalhei por 17 anos na casa de várias famílias de empregada doméstica, até ver que as aparências enganam, e me separar do meu primeiro marido, pensei que nunca mais ia querer alguém para ficar ao meu lado.

    Mas como sou teimosa, fui ao mesmo baile e me apaixonei pelo meu segundo marido, tive outro filho, menino. Já crescidos aconselho eles a fazer coisas que não tive meus pais para me aconselhar sobre a vida. E se desse para voltar no tempo hoje eu voltaria feliz de saber que tudo o que eu quis, consegui com meu trabalho e Deus ao meu lado.

Aluno: Vitor Moises Santos da Silva
E.M.E.F Castro Alves - São Leopoldo RS
Professora: Mari Angela Broilo

Conheça as redações: 2º lugar

No meu tempo

    No meu tempo era tudo mais tranquilo, eu morava na roça, no interior do Paraná, junto aos meus pais e meus quinze irmãos. Bom, tranquilo, mas eu sempre dava meu jeito de agitar, quando surgia uma oportunidade eu aprontava, como na vez em que estava no meio das plantações, brincando sozinha de capinar com a minha enxada, até que vi uma cobra cascavel, na minha mentalidade de criança, se eu matasse aquela cobra, ia deixar meus pais orgulhosos, e foi o que eu fiz, a matei e pendurei num galho que ficava no caminho de volta de onde meu pai estava trabalhando. Obviamente ele não ficou nada orgulhoso e me xingou muito, mas isso não adiantou nada, daquele dia em diante, toda vez que apareciam cobras por lá eu matava escondida dele.

    Aquele tempo de criança era bom! Quando entrei para a escola, fiz algumas amizades, meus amigos iam lá em casa e nós brincávamos até o sol se pôr. Minha família era muito pobre, durante o inverno eu usava as calças dos meus irmãos, por que não tinha dinheiro para comprar calças para mim, sem falar que naquela época era um absurdo mulher andar de calça, isso era “coisa de homem”, para as mulheres era só vestido abaixo do joelho. Se não tínhamos dinheiro nem para roupas, imagina só para brinquedos, minha maior diversão era ir no milharal catar espigas de milho, e essas eram as minhas “bonecas”.

   Durante a minha adolescência, a diversão que eu e minhas amigas da escola tínhamos, era o “Matiné”. que era um baile que só tocavam as famosas “Bandinhas Alemãs”, e esse baile era feito durante o dia.

    Eu estudei só até o quinto ano, naquele tempo não eram todos que chegavam até onde eu cheguei, a maioria ia no máximo até o terceiro. Era mais difícil ainda onde eu estudava, no colégio de freira. Era horrível! Sofríamos agressões físicas e verbais, elas inventavam diversos castigos que pareciam tortura, o mais comum era ajoelhar nos grãos de milho com os dois braços erguidos para cima, assim teu sangue descia e causava desconforto e dores, se você não aguentasse até elas dizerem que acabou o castigo ou chorasse, você apanhava muito! 

    O pior de tudo para mim, sempre foi que os pais não confiavam nos filhos naquele tempo, se eu chegasse em casa e contasse para eles o que aconteceu, eu passava por mentirosa, na mente deles, as freiras eram “de Deus” e não faziam isso. Uma das minhas maiores motivações para não sair daquela escola foi que eu tinha muita vontade de aprender a falar português, e sabia que isso seria muito útil para mim, como toda minha família era alemã, eu não tinha outra alternativa a não ser aprender com as freiras. No meu tempo, as pessoas casavam ainda muito jovens, eu me casei com dezenove anos, tive o primeiro filho aos vinte, e o último com vinte e quatro, aos vinte e seis, eu, meu marido e meus três filhos viemos de mudança numa carroça até Rio Grande do Sul.

    Eu me chamo Darci Lourdes Dapper Machado, tenho sessenta e quatro anos e muito orgulho da minha família que eu e meu marido construímos.


Aluna: Natália Alessandra Nunes
E.M.E.F Castro Alves - São Leopoldo RS
Professora: Mari Angela Broilo





Conheça as redações: 1º lugar

O banquinho de madeira


    Nasci numa cidade muito pequena no interior do Barracão(Paraná). Cidade boa de morar, foi lá que passei o começo da infância. Por falar em começo, esqueci de me apresentar, meu nome é Sidiane, tenho 36 anos. 

    Hoje pela manhã levantei, aprontei um chimarrão e me sentei na cadeira de balanço, que era da minha velha mãe, e recordei-me de minhas lembranças de infância. 
Adorava acordar cedo para fazer o café para meus pais, todos os dias eu tinha que fazer pães novos, porque papai falava que quando nós casássemos saberíamos ser uma ótima dona de casa,lembro também que papai fez um banquinho de madeira para eu subir, porque não alcançava no fogão.

   Ah, o fogão! Esse sim me deu trabalho, já que tinha que cozinhar para meus irmãos que trabalhavam na roça com papai e mamãe enquanto eu e minhas irmãs arrumávamos a casa. Pela tarde, logo depois do almoço, juntávamos todas as roupas sujas, colocávamos num cesto e íamos para a beira do rio lavá-las. Não podíamos ficar conversando muito não, pois eu tinha que fazer pães novos para o outro dia de manhã.

    Me recordo também das nossas roupas feitas por mamãe, para as meninas vestidos de chita e sandalhinhas de melissa, e para os meninos, calças de tergal, camisas de botões e sapatos eram os kichutes. As mocinhas usavam ruge e batom cor de carmim, para ficarem mais bonitas ainda. Quando chegava a tardinha, papai, mamãe e meus irmãos chegavam cansados, com as mãos calejadas, sentavam para tomar chimarrão e prosear. Nós, crianças, saíamos a brincar pelo campo, os meninos jogavam bola, e a gente amarrava uma cordinha num galho de árvore para brincarmos de balanço. 

    Quando completei nove anos de idade, meus pais resolveram vir para São Leopoldo, onde nós recomeçamos tudo novamente. Aqui, no começo foi difícil, pois passamos necessidade, só quem estava trabalhando eram os meninos, porque papai estava muito doente. 

    O tempo passou, logo todos foram casando, tendo filhos e eu fiquei de babá dos meus sobrinhos, enquanto minhas irmãs iam ao fura bucho - fura bucho eram os bailes aqui da vila. Logo comecei a namorar, me juntei, tive duas filhas lindas, passei muitas dificuldades, mas superei. Hoje sou separada, moro com minhas filhas, quando sentamos para tomar chimarrão, de repente volto ao passado e digo a elas que naquele tempo era tudo muito diferente, e relato a velha história do meu banquinho de madeira. Oh saudade! 

Aluna: Sandrielly Tepper Nass
E.M.E.F Castro Alves - São Leopoldo RS
Professora: Mari Angela Broilo