No meu tempo
No meu tempo era tudo mais tranquilo, eu morava na roça, no interior do Paraná, junto aos meus pais e meus quinze irmãos. Bom, tranquilo, mas eu sempre dava meu jeito de agitar, quando surgia uma oportunidade eu aprontava, como na vez em que estava no meio das plantações, brincando sozinha de capinar com a minha enxada, até que vi uma cobra cascavel, na minha mentalidade de criança, se eu matasse aquela cobra, ia deixar meus pais orgulhosos, e foi o que eu fiz, a matei e pendurei num galho que ficava no caminho de volta de onde meu pai estava trabalhando. Obviamente ele não ficou nada orgulhoso e me xingou muito, mas isso não adiantou nada, daquele dia em diante, toda vez que apareciam cobras por lá eu matava escondida dele.
Aquele tempo de criança era bom! Quando entrei para a escola, fiz algumas amizades, meus amigos iam lá em casa e nós brincávamos até o sol se pôr. Minha família era muito pobre, durante o inverno eu usava as calças dos meus irmãos, por que não tinha dinheiro para comprar calças para mim, sem falar que naquela época era um absurdo mulher andar de calça, isso era “coisa de homem”, para as mulheres era só vestido abaixo do joelho. Se não tínhamos dinheiro nem para roupas, imagina só para brinquedos, minha maior diversão era ir no milharal catar espigas de milho, e essas eram as minhas “bonecas”.
Durante a minha adolescência, a diversão que eu e minhas amigas da escola tínhamos, era o “Matiné”. que era um baile que só tocavam as famosas “Bandinhas Alemãs”, e esse baile era feito durante o dia.
Eu estudei só até o quinto ano, naquele tempo não eram todos que chegavam até onde eu cheguei, a maioria ia no máximo até o terceiro. Era mais difícil ainda onde eu estudava, no colégio de freira. Era horrível! Sofríamos agressões físicas e verbais, elas inventavam diversos castigos que pareciam tortura, o mais comum era ajoelhar nos grãos de milho com os dois braços erguidos para cima, assim teu sangue descia e causava desconforto e dores, se você não aguentasse até elas dizerem que acabou o castigo ou chorasse, você apanhava muito!
O pior de tudo para mim, sempre foi que os pais não confiavam nos filhos naquele tempo, se eu chegasse em casa e contasse para eles o que aconteceu, eu passava por mentirosa, na mente deles, as freiras eram “de Deus” e não faziam isso. Uma das minhas maiores motivações para não sair daquela escola foi que eu tinha muita vontade de aprender a falar português, e sabia que isso seria muito útil para mim, como toda minha família era alemã, eu não tinha outra alternativa a não ser aprender com as freiras. No meu tempo, as pessoas casavam ainda muito jovens, eu me casei com dezenove anos, tive o primeiro filho aos vinte, e o último com vinte e quatro, aos vinte e seis, eu, meu marido e meus três filhos viemos de mudança numa carroça até Rio Grande do Sul.
Eu me chamo Darci Lourdes Dapper Machado, tenho sessenta e quatro anos e muito orgulho da minha família que eu e meu marido construímos.
Aluna: Natália Alessandra Nunes
E.M.E.F Castro Alves - São Leopoldo RS
Professora: Mari Angela Broilo
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